quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Posto, logo existo! #naonemnada

A peça teatral "Não Nem Nada", em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental, propõe algumas reflexões bem interessantes sobre aspectos de nossa vida contemporânea – o tempo do telemarketing, dos instagrans, facebooks, whatsapps e tantos outros. Tempos de gente antenada, da vida múltipla em mil aplicativos de uma só vez. São tantas as questões, todas operando quase como pequenas denúncias de uma normalidade (a)típica. Eis a graça da coisa.

"(...) E logo adiante, uma casa de espelhos.  Você está e se vê gordo,  depois muito magro e alto, depois com um pescoço de girafa, depois com o rosto desfigurado e assim por diante. Em todos os reflexos,  contudo,  o resíduo de uma figura extremamente familiar na qual você aprendeu a se reconhecer", diz Vinicius Calderoni, autor e diretor da peça.

Quero me deter em um ou dois desses pontos. Sim, de fato mirei o palco com aqueles olhos de quem acabou de acordar, aqueles que ainda apresentam resistência para se abrir por completo, aqueles meio embaçados e remelentos, aos quais só o espelho pode dizer quem são. "Não Nem Nada" é um desses espelhos, angustiante por um lado, mas que nos assegura o pertencimento a certa lógica: aquilo, no fundo do espelho, sou eu! Mais, ou menos, distorcido pelo sono, sou eu! Penso que sou! Sou! Sei que sou! É tudo que me garante, ainda que de soslaio, que não sou os personagens híbridos dos meus sonhos, mas alguém que acabou de despertar – felizmente ou infelizmente, a depender do teor da última sessão onírica.

Lacan em uma de suas releituras de Descartes, disse: “Penso onde não sou. Logo, sou onde não penso”. Ora, ora! Subversões filosóficas à parte, Descartes devia se olhar muito mais ao espelho do que Lacan. 

O espelho de Lacan é aquilo que nos faz de algum modo inteiriços, que nos dá alguma noção primeira de corpo e de eu. É a possibilidade de ver o que o outro enxerga quando nos olha. É poder habitar os olhos do outro, mesmo que num instante. De alguma maneira, o espelho é, para nós, estruturante. Sem uma imagem o que seríamos? Sem alguma pressuposição daquilo que podemos ser para os outros, sem isso, seríamos? Identidade e alteridade são como faces de uma moeda, poucos duvidam.

Nada mal. Não fosse o perigo eminente de um aprisionamento especular, tal qual Alice. Esta é a metáfora que a peça me trouxe. Como nos vemos em um mundo quase completamente revestido de espelhos e auto-imagens? E, finalmente, a pergunta mais enigmática de todas: Como viver sem postar no Facebook?


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"Não Nem Nada" fica em cartaz até 18 de outubro de 2014, no Núcleo Experimental.