quarta-feira, 20 de abril de 2016

O encontro no centro da trama: uma reflexão sobre a narrativa

No campo das artes é muito comum nos depararmos com discussões sobre o papel do espectador em relação a obra apresentada. Seja literária, teatral, plástica ou outra, entende-se como fundamental a participação daquele que irá fruir da produção em questão. Quando falamos de atividade narrativa não é diferente.

Paul Ricoeur (2009) em seu texto “A vida: um relato em busca de narrativa” evocando Aristóteles afirma que “a trama narrada não é uma estrutura estática, e sim uma operação, um processo integrador, o qual somente se realiza quando chega ao leitor ou ao espectador, ou ainda, no receptor vivo da história relatada” (p.44). Ou seja, toda história que se conta se destina a um alguém.

Para que possamos nos aproximar um pouco mais da função deste interlocutor, destacamos aqui dois pontos fundamentais na construção da trama a ser narrada, também trabalhados pelo autor do texto acima mencionado.

O primeiro deles diz respeito à consistência atribuída a uma história a partir da seleção, junção e ordenação dos pequenos fatos que a compõem. O resultado dessa tripla operação é sempre mais do que a mera soma de incidentes pontuais. Esta organização carrega um “a mais” que confere determinado sentido e torna intelígivel a quem escuta aquilo  que está sendo enunciado.

O segundo ponto versa sobre a expectativa de quem ouve. Para Ricoeur “seguir uma história é uma operação muito complexa, guiada sem cessar por expectativas que concernem à continuação da história, expectativas que corrigimos na medida em que a história se desenrola, até que chegue a sua conclusão” (2009, p.45). Indo além, para aquele que narra, a expectativa de quem ouve também funciona como baliza, criando uma espécie de expectativa da expectativa. Jogo que só é possível, novamente, na presença deste “receptor vivo”.

É por estas razões que podemos tomar como análogo o exercício da clínica. Em cada sessão acontece a produção de uma narrativa única e profundamente autoral a partir daquele que fala. O ouvinte-analista testemunha o relato, reage, interage, intervém… E o narrador recolhe o que foi produzido neste encontro. Algo se conclui. Nos encontros seguintes é possível que as histórias se repitam, no entanto, a narrativa produzida certamente será inédita. Desenhando, assim, a clínica como um inesgotável trabalho de reconstrução narrativa, no qual a imprevisibilidade do se dar a ver pode causar efeitos inimagináveis.


Referências

RICOEUR, Paul. La vida: un relato em busca de narrador. In: Educación y Política; de la Historia Personal a la Comunión de Libertades. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2009.

segunda-feira, 21 de março de 2016

GRUPO DE ESTUDOS: Psicologia e Compromisso Social - Um olhar para as Políticas Públicas

     Sabemos que a Constituição Brasileira de 1988 garantiu que as necessidades básicas dos cidadãos fossem entendidas como direitos básicos, de modo a romper com a lógica assistencialista que conduzia, pela benevolência e pouco compromisso público, as políticas de Estado até então. Quase trinta anos se passaram, os avanços sociais foram muitos, mas não todos os necessários. Sendo assim, continuamos construindo e adequando dia-a-dia as Políticas Públicas para que possam cumprir os ideais republicanos de nossa Constituição “cidadã”. 
     Para nós, psicólogos, as políticas públicas têm se constituído como um enorme campo de atuação profissional, direta e indiretamente, para o qual nem sempre nos sentimos preparados ou capacitados. Afinal, há que se contorcer a lógica da formação em psicologia que até bem pouco tempo enfatizava sobremaneira a prática clínica em consultório particular. É inegável que a psicologia brasileira passou e ainda passa por rápidas transformações e ampliações nem sempre acompanhadas pelos currículos universitários, produzindo angústias e incertezas ao profissional que terá, cada vez mais, que se haver com a complexidade do fazer psicologia fora do “setting” tradicional. 
     Pois bem, é neste contexto que aceitamos o desafio ético-político que se impõe a nós, profissionais e cidadãos, pela busca de referencias de atuação que possam nortear a (re)construção de nossas práticas. Neste sentido, nossa proposta é a de nos debruçarmos sobre os aparatos teóricos, sempre a fim de realizar articulações com nossa atuação profissional nas mais diversas Políticas Públicas em que somos convocados.

     Em suma: com o objetivo de discutir temas pertinentes à prática profissional no contexto das Políticas Públicas, a partir de 05 de maio de 2016, ofereceremos um grupo de estudos semanal para profissionais e estudantes de Psicologia e áreas afins, sob a coordenação de Dailza Pineda, uma das profissionais atuantes no Consultório Paraopeba. 

Mais informações: dailzapineda@gmail.com